sexta-feira, 15 de março de 2019

Você vira Tu

Estava calor. Escondias uma coisa que tinha visto a meteres debaixo da torneira que jorrava água morna aquela hora. Primeiro deixaste a água correr, depois ensopaste uma coisa que não percebe o que seria. Saímos de casa, colocaste a chave debaixo da porta - que mais tarde tirarias com um ramalho - e caminhamos para a horta. E voltei a perguntar: o que é isso? É pão... com quê?
E mandaste-me fechar os olhos. Veio-me à boca um sabor húmido, desprovido de sal, mas com a textura do sal, que fazia crescer água na boca.
Sei que não fizeste de propósito, mas contaste primeiro que quando eras da minha idade, o pão fazia-se uma vez por semana, e que nos últimos dias já estava duro. Então a avó velhinha, molhava-o em água, e metia-lhe açúcar. E o que de duro simbolizava a vida, ficava doce e era motivo de festa. Descíamos o carreiro, e eu pequena, tu grande perante a minha altura, senti-me orgulhosa de ter provado o tempo, o espaço, e a infância, carregada de marcas que viveste.
Não sabia isto na altura, mas sei-o agora. Dizem que somos parecidas. Eu sei que aquele pão com açúcar ensopado na água ainda meio morna foi o melhor deleite do meu verão, e me levou para um antigamente que não sabia ter sido à tanto tempo. Na minha pequenez, nem sabia ainda o que era a velhice, nem o tempo.
Importava o agora.
"Vó, das-me mais?"
"Só se não disseres à tua mãe".
E noutra trinca voltei a tua infância, de pedras de sal doces.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Incertezas

Sentas-te, com a incerteza se já acordaste ou ainda estás no transe da noite, nem sempre escura. Fechas os olhos. Ou melhor, pensas em fechar os olhos, e logo a tua mente vagueia para lugares desconhecidos, estranhamente familiares em detalhes peculiares. Chamas por quem achas que conheces, mas que afinal nem por isso. Ninguém responde, e talvez nesse silêncio, tenhas uma resposta em surdina. A presença fantasma vai-se desvanecendo no tempo, e certa que ela ainda existe e que pode voltar a qualquer momento vais respirando fundo, sem a certeza, ainda, se é para ela voltar, ou para ir embora para sempre. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Ponto final.

O amor não tem dimensão. Nem credos, nem crenças. Nem lugar. O amor é amor e ponto final.
Ás vezes cruza-se contigo num olhar que se cruza, outras numa esquina. E ás vezes chega-te o amor dos outros. De um pai por uma criança, de dois velhinhos com as mãos em trança.
Hoje, chegou-me o amor dos outros da forma mais genuína que já pude assistir. Arrependo-me agora por não ter dito isto a quem de direito. O amor desconcertante. Que te deixa enamorada e com vontade de estar também apaixonada. De partilhar uma manta em dias de frio, de não estar sentada sozinha à beira de um rio.
Quando se ama, ama-se, e ponto final. 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

world wi(l)de web

A conversa surge com metáforas mascaradas, só entendidas por quem as diz. As meias palavras perdem-se na viagem entre os fios, as ondas e as transmissões eletricas que fazem o mundo. Encurtamos a distância brincando ás conversas por teclas, também elas já hoje virtuais. Ouvimos a voz que não reconheceríamos por entre cada notificação. Na conversa não há calor humano. Há caras sorridentes, sempre amarelas de quando em vez trocadas por animais ou gifts que despertam o riso para o ecrã. O tempo passa realmente, porque fica a hora do envio, e ás vezes o tempo em que a mensagem foi enviada. Onde fica o mundo real?

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Pedro e Inês

A eloquência dos dias saltita entre o real, e o real imaginário que se cria com a debilidade traiçoeira da mente. Caímos sem nos mexermos, brincamos com o ar como se de um instrumento musical se tratasse. Divagamos para fora das quatro paredes para o passado longínquo, na esquina da mente a cantar para o presente, que se materializa em passos firmes à nossa volta. Gritamos com voz doce e meiga, tentando encontrar um fio que seja o da realidade, para voltar a alimentar o presente com o pensamento, mas falhamos. Viramo-nos em todas as direções possíveis para encontrar o caminho, mas ele aparece e desvanece-se no ar. Tão depressa como apareceu. E continua-se a cruzar o passado e presente. O futuro? O que será e onde andará?

sábado, 5 de janeiro de 2019

(Continuação)

E a magia acaba, tão depressa com começou - e leva com ela o chão, o pão e todas as coisas imagináveis que soam a despedida. Minto. Talvez acabe mais depressa que começou. Porque começou leve, sem aviso mas delicado, caminhando sobre telhados de vidro e sem atirar pedras, saboreando cada passo. E acabou num abismo sem fim nem principio, onde caímos ad eternun. Pousamos a cabeça na almofada, recostamo-nos no carro, fechamos os olhos na esperança de acordar da vida ou do sonho, sem ter a certeza em que dimensão estamos. Passou o ano, a somar aos tantos que já passaram, e é a falta de céu e de norte que nos faz perceber que acabou mesmo.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Condor e magia

Quando a distância se encurta mas ao mesmo tempo aumenta em nós um fosso invisível onde vão parar todos os assuntos - tabu da nossa existência, cerra-se o ar à nossa volta. Vem uma avalanche de "ses" e "porquês" que arrebatam a calmaria em que os pensamentos pareciam divagar, e turbilha a mente e o espírito. Pudesse eu ter o condor de mapear esta tempestade de ideias e ideais e organizaria tudo em gavetas fechadas em cadeados de 7 chaves, cuja abertura mediada por um sem número de testes e provações, aconteceria só aos realmente merecedores de tal feito, e não aqueles que o destino, tão certo como alietório, seleciona para completar tarefas. Pudesse eu ter o condor de mapear esta tempestade, e dormiria agora calmamente no meu leito, sem inquietações de caractér e de oportunidade.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Natal

Passamos os anos a falar sobre a materialização do Natal. Como se o amor, a amizade, a solidariedade viessem embrulhados nos mais bonitos laços, acompanhados dos talões de trocar que escondem os valores mais elevados. Insurgimos-nos contra isso, uma, outra e outra vez. Ás vezes sem percebermos bem que o estamos a fazer, mas vamos na onda do "outro diz que disse".
Nunca recebemos da mesma mão que damos. Mas ás vezes há exceções, e elas sabem tão bem...
Outras vezes, pedimos a presença de alguém, anos a fio, vezes sem conta... E há uma vez, que mesmo num efémero momento que parece durar para sempre, ela acontece.

E quando tudo se conjuga, pela primeira vez, é Natal.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Tropeço

E de tanta vez que tropeçamos um no outro, fica a dúvida se não era o caminho ou se fomos nós que mudamos as encruzilhadas que nos estavam destinadas.
Agora já longe, aparecem as questões a que nunca vamos saber responder. Como teria sido o futuro, agora nosso presente? Onde estaríamos? Quem seríamos?
Vem o café, o fino e a imperial, uma e outra vez. Nasce a conversa como as cerejas no inicio da primavera, a maturar vários assuntos em simultâneo. De quando em vez, é golo e muda-se de assunto, e cai um silêncio onde falam os olhares que brotam as memórias passadas projetadas na vidraça. Vêm à memória números, encontros fugazes, noites frias passadas ao luar, catapultas de conversas que foram pontos de partida para tantos sonhos...
E é golo de novo. Cruza-se o olhar como outrora se cruzou o caminho, fixa-se o vazio á espera que o olhar se desvie para não encontrar no fundo da alma mais Estórias que ficaram esquecidas e perdidas no tempo.
E o tempo petrifica. Percebemos que assim que nos cruzamos, tu a tremer de frio eu com o coração a saltar, que não interessava se os detalhes tinham ficado no passado, porque o essencial continua a ser presente. Tropeçamos um no outro. Seguimos ou ficamos?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Um século depois

Não redescobri a anatomia das tuas mãos, mas reconheci a essência da tua alma. Os cabelos brancos nas têmporas contam a história da vida, onde em alguns pontos se cruzam deixando aquela marca irrefutável do amor misturado com a dor que tanta vez andam de mãos dadas.
A incompreensível razão das coisas é inexplicável também neste caso. O loop das questões que isso levanta não é relevante. Entender que mesmo um século depois o tempo não levou nada, que deixou o riso fácil, o olhar cortante, os choques elétricos que viajam através da atmosfera, agora regada com um cheiro a cigarro, e encontram o lugar onde se guardaram as emoções e reaviva-as, uma a uma.
A saudade mistura-se com o presente, numa viagem no tempo repleta de inconstantes vai-vem de memórias, ora da felicidade da tua presença, ora do abismo da tua ausência.
Saltitamos entre a vida, especial e banal e as crueldades do destino. As cicatrizes que elas deixaram são atenuadas pela certeza de que nada foi em vão.
A meta nem sempre é chegar e o caminho que fazemos é que dita quem somos.
Haverão sempre impulsos elétricos (e magnéticos?) perdidos num efeito doopler que deixámos na atmosfera e por mais vezes que a terra gire, este efeito não deixará de girar connosco. É a vida no seu estado mais cruel e verdadeiro e as nossas decisões esplanadas em cada passo da nossa vida.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Luz

O frio, que congela entranhas, e que move montanhas, e que muda paisagens, despe ramagens, consola também a perda, cega e desmedida das coisas.
O frio, trás as lembras de dias agora também de outono, e outros de inverno onde se ouviam passarinhos e o sol que teimava em estar.
O frio, que mesmo nos dias mais quentes de verão chega, abraça e leva consigo a luz e a leveza da vida, tão querida, que nos faz questionar.
O frio, que deixa as grandes perdas mais vivas, sempre, sempre presentes.
E por mais que o tempo passe, que venha o frio, nada tira o brio da tua vida, tão querida.
O frio, que ás vezes vem de passagem, outras vezes fica para ficar, despoletado por um sopro da memória de outros tempos que ainda são presente, inunda a alma. E por um momento, mesmo que escasso e vazio pela falta da tua presença, tudo não passa de um pesadelo, e o presente volta a ser o passado antes de ser o futuro, agora presente, sem a tua luz.

Impulsos

Salta-me à memória o dia em que conheci os refegos das tuas mãos, e através delas partilhamos os mesmos impulsos nervosos.
Éramos duas crianças a brincar aos adultos, sem saber que a vida nos ia fazer cair uma e outra e tanta vez.  Não sei se lutamos pouco ou se no fundo não havia nada para lutar. Fizemos o nosso destino uma, outra, e outra vez. Cega-nos hoje as lembranças de um passado que teima em tocar no presente e que o nosso próprio bem deve ficar no passado.
Bem lá atrás, escondido nas memórias felizes e fugazes com que fomos presenteados. Porque o que importa não precisa de ser longo ou duradouro. Existiu, e isso irá alimentar as nossas almas até um dia, noutra vida quem sabe, ficarmos juntos para sempre.

(Not) The Last, and (not) the list

Um século passou desde a última vez que botei prosa aqui.
Perdi passwords, e também perdi o norte, e outros pontos cardeais todos.
Hoje, algo me fez re-visitar este espaço, e o bichinho pela escrita que nunca se perdeu, fez-me insistir até conseguir entrar.
Ressuscitei o "outros lados do olhar". Eu própria ressuscitei muitas vezes ao longo destes quase 7 anos sem escrever aqui. Mudei, adaptei-me, e achei também que não tinha de o fazer.. que se lixe o resto!!
Escrever e fotografar vão-se manter acesos aqui. Espero que com uma frequência que me permita não me esquecer deste cantinho.
A quem vem pela primeira vez, e aos que vêm mas já não se lembram... este é um blog sobre coisa nenhuma, mas inspirado nas coisas todas...da vida.
Sejam re-benvindos!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

 O Mondego, de uma estrela emana juventude, que em Coimbra faz nascer emoções.


Parque Verde do Mondego, Coimbra, Janeiro 2012   

sábado, 2 de junho de 2012

Timidamente, há uma lágrima que saltita em lugar incerto e brota em locais diferentes do olhar. Não se sabe onde, nem quando, mas ela vai explodir.
Quando isso acontecer, podem vir tempestades, calmarias, desertos de calor, que nada vai mudar a bolha de sabão, feita com a água salobra das minhas lágrimas, que se formar entre mim e ti.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Gostava que o tempo nascesse, e que não precisasse de dormir  nem de descansar. Adorava ser imune a metade de tudo o que se passa, e não me precisar de lamentar pela falta de tempo em alimentar este blog. Adorava continuar a ser menina que escreve em cadernos de aulas que eram perdidas entre conversas ás tantas da noite e intervalos que vinham. E saudades que nasciam de coincidências que despertavam sorrisos. e que agora não despertam nada...

quarta-feira, 7 de março de 2012

Estranhas pessoas fazem-nos lembrar conhecidas memórias.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pequenas aragens trazem grandes recordações de grandes prenuncios de intempéries que acabaram por acontecer. E cumpre-se a fóbica recordação de que a recordação vai voltar. Então volta, cumpre a sua função - arrepia, magoa, enraiva, e vai.. - tão sorrateiro como quando chegou.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Cada dia foge pelas entranhas do Mondego, pelos caminhos traçados por alguém que um dia veio a ser Rei, por capas pretas arrojadas pelas calçadas ladeiradas. Pingas de suor que transbordavam equações químicas, matemáticas,  nomes de ossos, músculos e foramens,  letras, grandes análises de obras jorram nas ruas. E cai noites soberbas onde serenatas acordam os habitantes mais antigos. E nascem os dias. E cala-se a noite. E voltam as capas a arrojar nas ruas.

sábado, 31 de dezembro de 2011

O tempo foge por todas entranhas da vida... acelera o passar do tempo, e de 360 graus, surgem mudanças. Do dia 365 para o primeiro do próximo ano, não há mudanças. Há renovação de votos. De desejos que porventura, nunca serão cumpridos.
De qualquer forma, senhor 2012, seja muito bem vindo, e não seja demasiado drástico com o mundo. Deixe que todas as coisas boas aconteçam, e doseie muito bem as menos agradáveis!