domingo, 27 de fevereiro de 2011

Brio, frio, vazio

Os ignorantes, pensam que o tempo não regride. Os teimosos também. Quem ficam com assuntos resolvidos, sabem que não. Quem nunca foi livre para decidir, não sabe o que faz, onde está e o que é poder. Consome uma chama visivél a atmosfera, cessa o burburinho de fundo. E fica só. Com um vazio outrora cheio de muito para dar. Busca forças que já foram consumidas por muitas batalhas.. forças que sem alternativa, deram tréguas à guerra. Iça-se um fogoso tremor. É a brisa de fim de tarde, de um já há muito acontecido. Amarra-se aquilo que já não é de ninguém, e que nunca deixou de ser de alguém. Tenta-se esconder mais fundo a chave daquilo que não queremos desterrar. Assusta cada relance de brio. E vem o frio, outrora reconfortado por um abraço, sussurro sossego, afagado pelo som de uma divertida vibração de cordas. Vem o escuro que arrebata tudo. Que envolve tudo. Mas que não nos envolve. Nunca mais!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sinonímia Financeira


É muito raro que dois mercados caiam no mesmo dia, porque os jornalistas de economia não deixam. Quando um mercado cai, o outro derrapa. E, provavelmente para refrear os ânimos especulativos, quase nunca se verifica a existência de mais do que um mercado a subir. Se um sobe, o outro avança


Os problemas relacionados com a dívida soberana trazem, apesar de tudo, algumas vantagens notáveis. A primeira é o facto de a dívida soberana ser, como o próprio nome indica, soberana. É muito reconfortante saber que ainda há alguma coisa soberana em Portugal, mesmo que seja apenas a dívida. Quando toda a nossa política é definida pela União Europeia, dá gosto saber que a dívida se mantém firme na sua teimosa e patriótica soberania. Neste momento, é um dos símbolos da nacionalidade. A bola amarela que vemos no centro da bandeira nacional tem agora um duplo significado: é a esfera armilar e representa também um dos muitos zeros da nossa dívida soberana.
A segunda vantagem é que mesmo leigos em economia e finanças, como eu, dão por si a prestar atenção à informação sobre os mercados, para ir avaliando o estado do nosso endividamento e da nossa economia em geral. Depois de ter estudado profundamente os serviços de informação económica, estou em condições de apresentar uma conclusão preliminar: nos mercados, além da especulação financeira, há especulação lexical. Quando as bolsas têm um dia mau, ficamos a saber que Nova Iorque perdeu, Paris derrapou, Madrid regrediu, Tóquio tombou, Londres caiu e o PSI 20 deslizou. Se os mercados se animam, somos informados de que Nova Iorque subiu, Paris avançou, Madrid cresceu, Tóquio somou, Londres ganhou e o PSI 20 valorizou. É muito raro que dois mercados caiam no mesmo dia, porque os jornalistas de economia não deixam. Quando um mercado cai, o outro derrapa. E, provavelmente para refrear os ânimos especulativos, quase nunca se verifica a existência de mais do que um mercado a subir. Se um sobe, o outro avança. É curioso que uma atividade tão repetitiva como o comércio financeiro tenha um horror tão evidente à repetição.
No entanto, se indiscutivelmente contribui para a elegância dos noticiários financeiros, evitando repetições que poderiam estragar a beleza daquelas listas de índices e percentagens, o recurso aos sinónimos pode ser perigoso, sobretudo num meio em que o rigor é fundamental. Na verdade, perder não é o mesmo que derrapar. Um mercado que tomba não parece poder levantar-se, ao passo que um mercado que cai dá ao investidor a sensação de que pode voltar a erguer-se mais facilmente. Do mesmo modo, e embora os jornalistas pretendam referir-se à mesma coisa, confio mais num mercado que cresce do que num que ganha, na medida em que o primeiro aparenta estar a fazer um esforço sustentado para se tornar maior e mais forte, enquanto o segundo se limitou a um ter um ganho que pode ter sido pontual e até fruto do acaso. Percebe-se melhor o que quero dizer se pensarmos na distância que separa as expressões "O Sporting cresceu" e "O Sporting ganhou". Creio que a ERC deveria recomendar maior cuidado aos jornalistas que nos dão informações sobre o modo como Nova Iorque negociou, Paris especulou, Madrid agiotou, Tóquio endrominou, Londres usurou e o PSI 20 trapaceou.

Quinta feira, 10 de Fev. de 2011 , Ricardo Araújo Pereira, in Visão

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Não posso adiar o amor para outro século

Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio


Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração



A. Ramos Rosa, A Mão de Água e a Mão de Fogo

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Não houve um jantar de despedida. Nem um pré aviso. Mas será que houve isso quando chegaste? Durante muito tempo, achei que sim. Achei que sim, que tinha acontecido um momento de conhecimento. Culpa talvez do vazio que se seguiu. O nada é preenchido de lembranças. Recordações que polvilhadas de imaginação e outros condimentos, têm um resultado mágico, e intenso. Foi ontem. Ou não, talvez já tenha sido à 2 dias. Não sei ao certo. Relembro-me que foi da noite para o dia. Quando pisquei os olhos... era o nada. Nada. Já só havia o rastilho ardido do jantar. Do primeiro tudo. E ao caminhar, e com o vento, até este se desfaz...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Cai repentina a noite. Sinistramente, vagueia sozinha a mente, fora de um hospedeiro hostil. Talvez tenha sido um susto, um acto de rebeldia, ou uma inocente corrente de ar, a causa de tal viagem.
Certo é que alguém, cujo nome ou morada a noite desconhece, que deambula pelas ruas de uma cidade imaginária onde fadas e duendes também vivem.
Vejo a mente solidária...fecho os olhos, e lentamente fica também a minha mente a vaguear. Sozinha. Hostil.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Que o o sol influencia o humor, o amor, e faz parte de umas das muitas razões que se tem para sorrir, já eu pensava saber. Mas que o tempo trazia consigo recordações vivas do que aconteceu à anos feitos dias, que entranhado no vento, sem se ver, mas a sentir-se, vem aquele dia, aquela conversa, aquele momento imortal...
A cada passo que ando, vem sorrateira, a recordação. Esconde-se quando olho para traz, evita olhar-me de frente. E sopra o vento, e sopra à memoria... Aflora todas as percepções sensoriais, que passaram a memoria a longo prazo no exacto momento que se captou a emoção.

domingo, 23 de janeiro de 2011

A noite fria trás sombrias revelações... Gélidas possibilidades assolam a alma, e acordam fantasmas já combatidos. Lágrima a lágrima, constrói-se um forte de emoções.
Marioneta de desejos, padece sobre um poço, prestes a cair, semblante negro, vultuoso de magia e magnitude.
Apaga-se da alma a ideia de finitude que tudo transporta, culpa da felicidade e realização que cada gesto demonstra.
O cansaço assola a alma dos demais, e assola a minha também.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ser bem de longe

Há quem fale que à terceira é de vez... Eu penso que as cabeças duras só entendem à quarta... Uma cabeça dura, ela entendeu à quarta: propositadas e em vão, com ou sem prévia ingenuidade... Na quarta vez, a resposta veio-lhe graças a um ser bem de longe... ( e não, não é Deus..) mas sim o Senhor Berardo, que da Madeira "mandou construir" um mseu no Cuntenente, que em certa altura teve uma Sposiçon, que continha esta obra literária, (daquelas que à primeira pouco têm de literárias, mas que basta ler o titulo para entendermos muitas situações mal explicadas..vá, o grafismo ajuda) com um ainda mais literário titulo, uma sátira no ramo da B.D...
Ah, e isto...é arte comtemporanea , mes snhores!

[ veja ainda uma muito boa notícia, sobre a obra ]

domingo, 16 de janeiro de 2011

16 de Janeiro de 2011

Consulto o calendário do computador para me certificar da data. Respiro fundo, e penso vazio. Tento encher a mente de coisas inteligiveis, mas a tarefa torna-se vã... E respiro fundo de novo. Gero um campo magnético, sem polo norte, sem direcção. Constacto que me salta à mente e a respiração... essa torna-se ofegante. Imagens saltam, arrepios saltam, salta tembém uma certa frívolidade, carapaça de tanto, tal com os escudos de guerra dos nossos antepassados; concentro-me... o meu olhar foca-se num momento fruto da imaginação.
Olho agora o calendário, olho-o concertrada. E percebo o quanto tempo passou...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, livrar-mos logo disso."




Charles Chaplin

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Não tinha de acontecer, mas ficava bem... Uma prova, um sinal do que se passou. Com o tempo, com vento, existem coisas já não tão claras. Será que aconteceram mesmo? Dizer que não seria esquecer quem sou. Esquecer tempo e uma vida, e muitos que gosto.
Não esquecer tudo, lembrar-me fotográficamente de cada instante passado, imaginado, segredado, faz-me querer que sonhos são realidade.

Quase, quase...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Last, but not List, 2010

Passaram tantos dias. Tantos. De certa forma, é normal, depois de 364 dias, se iniciar um novo ano. No entanto, ainda ontem fiz anos,fiz exames, andava de manga curta, a conhecer os novos professores. Ainda ontem choramingava o final do 11º, e agora, não tarda, tenho o 12º meio-feito.
Não, este não é um texto nostalgico, aqueles que toda a gente escreve. Farta de ouvir falar de FMI's, de crise, de saldos e de eleições, quero escrever sobre uma coisa que muita vez me tenho lembrado.

Até aqui, muito até aqui, temos sido governados por uma geração que critica a minha. Ou que critica as gerações que muito estão proximas da minha... Criticam a nossa leviandade, a nossa libertinagem, a nossa má educação. Muitas vezes, chego a concordar. Muitas vezes por culpa de uma situação gerenaliza-se, e ai é que está o cerna da questão. Nós não somos maus. Tentamos viver em extremos. Mas somos assim graças, de certa forma à educação que recebemos, à sociedade em que estamos.
Somos governados por pessoas super - bem - educadas- formadas - cadastro limpo - aplicadas - desde o dia em que foram concebidos. E o resultado?? Bem... é ler um jornal,. abrir a televisão no noticiário... A partir de 2011, creio que as gerações que tanto corrompido a sociedade têm, vão começar a invadir os mercados de trabalho, a levantar a sua voz. Talves 2011 seja então, um ponto de viragem. Mesmo que não seja, quero acreditar que sim. 2011 será melhor que 2010. 2011 tem tudo para ser melhor para o País. Penso que ja não pode ser pior. Em 2011, cada um, todos, teremos que ser melhores. Não custa pensar que sim... Não podemos pensar que não!

A todos, um feliz 2011!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

"I would rather have had one breath of her hair, one kiss from her mouth, one touch of her hand, than eternity without it. One..."


Seth says, in "city of the angels"

domingo, 26 de dezembro de 2010

Mudar

sim, mudou. Mudou tanto. Agora, está mais duro... está mais difícil. Tentamos aprender com o que passa, mas a aprendizagem traduz-se numa modificação no futuro, e não num calejamento de situações. É ilusão, mas também é necessário. Cometer erros, pensar neles, reflectir, levantar, e fazer melhor a seguir. Mudou também a prespectiva, o objectivo, a finalidade. Mudou muito. As aprendizagens fazem barreiras intransponiveis de betão, que muitas vezes se transformam numa coisa que nunca mais se transpõe...
Sim, mudou...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Tempo que passa, tempo que vem.. Natal!


Embora apenas pareçam ter passado 7 semanas, é de novo Natal. De novo vêm os presentes, os fritos, os chocolates. De novo digo "Feliz Natal", não numa de Natal consumista, mas sim para que todos se lembrem que agora, tanto como em todos os dias, devemos esquecer o umbigo, e olhar mais para o lado. Lembrar o bom, e esquecer o mau, mesmo que só por alguns dias... Pois os problemas não virão solução por pensarmos e falarmos neles!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

II - Este Mundo de injustiças

(...)
Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.
Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.
(excerto)

José Saramago,
Texto lido na cerimônia de encerramento do Fórum Social Mundial 2002

I - Este mundo de injustiças

(...) E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal
elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros "comissários políticos" do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os certas conhecidas minorias eternamente descontentes..
(...)

José Saramago,
Texto lido na cerimônia de encerramento do Fórum Social Mundial 2002
(excerto)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Folha branca, que me dizes?

Com uma página em branco, podemos fazer tudo. Desenhar. Pintar. Escrever... Ou ficar simplesmente a olhar, como se de nada se tratasse, ou como se se tratasse de algo tão estrondoso que muito dificilmente se tivesse capacidade ou sensibilidade para tocar.
Uma folha em branco pode ser muita coisa. Tanta coisa. Pode ser um abraço, um assopro, um amasso. Pode ser crescer, construir, viver. Uma folha em branco é o que nós quisermos. É, o que nós fizermos.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"E me dá uma saudade irracional de você. Uma vontade de chegar perto, de só chegar perto, te olhar sem dizer nada, talvez recitar livros, quem sabe só olhar estrelas… Dizer que te considero - pode ser por mais um mês, por mais um ano, ou quem sabe por uma vida - e que hoje, só por hoje ou a partir de hoje (de ontem, de sempre e de nunca), é sincero"

Caio Fernando Abreu

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Contos

"Se Deus existe, e eu talves acredite que sim, é piamente que peço, não para fazer um final feliz e feérico da minha vida,que não deixe alguns episódios, e se Deus existe, ele sabe quais são, acontecerem com mais ninguém. Porque acredito que sim, agradeço a Deus todos os momentos em que pude exprimentar o quão bom  era ser feliz, o quão bom era ser total e plenamente pessoa, com letra grande. Mas os contras desta condição, fazem-me desejar que isto nao aconteça com mais ninguém, porque o depois e o durante não compensam. Ai de mim, se os dias  de sol não chegassem para derreter este gelo quase formado que o sol do destino pôs no meu caminho. Ai de mim se vacilar, se não acreditar que não é correcto o que faço cada dia, ao colocar o dedo no despertador vespertino, e me levanto para mais um dia de jornada. Ai de mim, mas ai não só de mim. O tempo, esse, fez o que pôde. Chegou um dia em que o tempo não valia para mais nada. E mais fossos e poços eu não queria. Muitas vezes, para sermos alguém, temos de deixar ser. Deixei de ser. Se Deus existe sabe que sim. Lentamente, entre recuos e no tempo, memórias e conversas voltam a ser. Se Deus existe, ele também sabe que há-de ser para sempre assim. E o tempo, esse, faz ser simultâneamente outro eu. Não como ilusão, mas como ser evolutivo, com plena consciência dos seus direitos e deveres. Com personalidade e com sentido de pessoa. Sozinha, foi a mais adulta criança no meio de uma historia de encantar, que por não se ter passado num conto infantil, não teve um final feliz."